sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Eterna Espera

O rapaz de olhos azuis está sentado e espera. Ele não tem livros nas mãos, nem fones nos ouvidos. Ele só espera. Olha para o nada alheio aos trens do metrô que chegam e partem. Indiferente ao ir e vir constante das pessoas. Não percebe que não consigo deixar de fixar meus olhos curiosos nele. Assim percorro as curvas do seu rosto. Tem um queixo redondo com uma covinha discreta, a testa pequena, olhos vivos de pupilas levemente dilatadas. Tem lindos lábios rosados que não se abrem um sorriso em momento algum mas que também nunca se encontram. Ele suspira fundo e finalmente volta os olhos para os pés. Parece despertar de um transe. Vira a cabeça para os lados e para cima várias vezes. Acredito que esteja certificando-se de onde está. Consulta o relógio. Novo suspiro. Levanta e entra correndo em um dos trens, depois do sinal, mas antes que as portas se fechem. Ele cansou de esperar. Eu também.

Danielle Gomes

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Wisky

Giro o copo de wisky para a esquerda e para a direita, mas a pedra de gelo, meio submersa apenas, não gira. Petulante e teimosa permanece fixa como a zombar de mim. O cheiro da bebida me enoja, tem cor e aspecto de água suja e cheira bêbado de botequim. Não sei porque coloquei aquele copo.
Ouvi alguém dizer que bebe para esquecer. No fundo não sei se quero esquecer. Acho que sou meio como essa pedra de gelo. Meio submersa em algo escuro e duvidoso que gira em torno de mim enquanto permaneço imóvel.
Levanto os olhos em direção à janela. O vento bate mas não faz barulho. É um silencio absurdo. Acho que você estaria feliz aqui no meu lugar. Silêncio e solidão. É isso que aprecia. Embora não goste de wisky assim como eu. Será que finalmente temos algo em comum? Para falar a verdade não tenho nenhuma certeza sobre o wisky. Talvez até seja sua bebida preferida.
Um brinde a você e ao seu amor por si próprio. Ah, sim. Disso estou certa. Seu amor por si mesmo é incondicional. Quem disse que você não tem amor por ninguém? É o maior amor que eu já vi na vida, amor pelo seu ego inflado e abundante.
Eu rio. Gargalhadas altas. Acho que estou meio tonta. Tento me levantar mas acabo desistindo, melhor ficar por aqui mesmo. Está tudo bem no fim. Forço um gole de wisky e percebo depois que a pedra está menor. Será que vai acontecer comigo? Será que vou diluir e desaparecer?
Foi tão melhor ter-se ido. Vai embora. Leva essa crueldade alimentada pela escuridão.
Vou filtrar tudo e manter só as boas lembranças. O dia que vi meu rosto dentro dos seus olhos. Um sorriso. Dormir no seu braço. O cheiro do seu sabonete. Vou guardar tudo isso dentro de um baú. O resto você pode levar com você. As ofensas, as lágrimas, as mentiras. Fique com tudo.
Já não há mais pedra de gelo. Só a água suja um pouco mais rala. Assim fica mais fácil beber.

Danielle Gomes

domingo, 12 de outubro de 2008

Tarde de Chuva

Hoje o dia começou difícil. Chuva pequena, mansa, ininterrupta. Chuva daquelas que não quer parar de chover. Nem tem cheiro de terra molhada porque em São Paulo nem tem mais terra, Nem tem mais mato, nem tem mais minha infância.O dia hoje continua difícil, áspero, triste. Sempre achei a chuva triste, mas também é confortante. Cobertor, pipoca e chocolate quente. A janela do quarto cheinha de pingos, lágrimas de Deus. Já não sei se escorrem dos meus olhos ou pelo vidro da janela.Penso nos dias que se foram. Não se lida com o passado. Melhor deixá-lo onde está. Ou sofremos porque a felicidade é finda ou pelas feridas que estão sempre abertas.Hoje não dá nem pra tomar banho de chuva. A chuva é fina e fria, penetra os ossos e atinge o espírito. Nem tento. Nem penso. Ou melhor, penso.Mas afasto o pensamento. Melhor ficar aqui dentro.Protegida, mas sozinha.

Danielle Gomes

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Olhar Nos Olhos

Os olhos são como jóias. Talvez sejam portas. O olhar transmite grande energia. É olhando nos olhos de alguém que às vezes nos apaixonamos. A atenta observação dos olhos pode fornecer instrumento para análise: esses olhos mentem, aqueles podem ver mas não enxergam. Há olhares que têm luz própria e reluzem. Basta lembrar olhares famosos como o olhar perscrutante de Pablo Picasso, o olhar esperançoso de Che Guevara e o alucinado de Johnny Rotten; o olhar duro e dorido de Vladimir Maiakóvski, o doce olhar perdido de Rilke. O olhar misterioso da Monalisa. O olhar infantil do jovem Rimbaud.Olhos vívidos e lindos como os de Bete Davis, olhos infinitamente cheios de ternura como os de Audrey Hepburn. Olhos falam, olhares significam.Me deixa olhar nos seus olhos.

Janilto Santos

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Sonhei com a sua mão na minha. Segurava minha cintura e sorria, sorria, sorria. Perfume de jasmim. Sabor de morango com chocolate.

Danielle Gomes

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Gatos nas noites de domingo

A solidão é um bicho. Um gato, talvez. Porque a solidão é inteligente, racional, calculista. Ela não se precipita como a felicidade. A solidão instala-se devagar, vai tomando conta da gente sem fazer alarme. No início nem a sentimos e estar sozinho é até bom, uma sensação de paz e liberdade. Com o tempo percebemos que algumas pessoas nos fazem falta, mas há um desânimo qualquer que nos impede de digitar um número de telefone ou de pegar a chave do carro.Tenho um vizinho que esta perto do último estágio da solidão. A janela do quarto dele fica de frente para a janela da minha sala. Todos os domingos a noite ele me observa com um pequeno binóculo pela fresta da persiana. Já sei disso há alguns meses, mas mantenho segredo. Acho que sou sua única companhia, uma companhia que ele crê inconsciente.A certa altura não permitimos qualquer aproximação humana. A solidão já é parte da nossa vida. Enroscou-se em nossa perna e pulou para o nosso colo, aninhando-se ali definitivamente. Foi o que aconteceu com o meu vizinho. Então, nos domingos à noite eu costumo colocar um bom CD para tocar. Abro a janela da sala de modo displicente, apago a luz e acendo a luminária. Abro uma garrafa de vinho tinto e me sirvo. Gostaria de ir até o apartamento do meu vizinho e convidá-lo para uma taça, conversar, rir, ouvir música. Mas já não há esperança. Ele não atenderia a porta e fecharia para sempre a persiana.

Danielle Gomes